
Saí do teatro há pouco e ainda estou pensando em algumas das conversas que ouvi no palco. Para mim, quando uma peça termina e continua acontecendo dentro da cabeça da gente, alguma coisa deu muito certo.
Foi assim com Freud e o Visitante.
A história nos leva a Viena, em 1938. Do lado de fora, o nazismo avança e vai mostrando sua face mais cruel. Dentro de casa está Sigmund Freud, já envelhecido, doente, inquieto e diante de um mundo que parece cada vez mais difícil de compreender.
Eis que surge um visitante.
Quem é aquele homem? Um louco? Alguém disposto a brincar com a cabeça justamente do homem que passou a vida tentando entender a nossa? Ou, quem sabe, o próprio Deus?
Porque o que poderia facilmente virar uma discussão pesada sobre religião, existência, fé e razão se transforma numa conversa inteligente, inquietante e, em vários momentos, surpreendentemente divertida. Há humor no texto, e um humor muito bem colocado, que dá respiro justamente quando o assunto ameaça ficar grande demais.
E os assuntos são grandes.
Deus existe? Se existe, por que permite tanta barbaridade? O ser humano é realmente livre? E, se temos liberdade para escolher, o que fazemos com ela?
Talvez o mais interessante seja justamente perceber Freud, homem da ciência, da razão e declaradamente descrente, diante de alguém que parece conhecer suas certezas e principalmente suas dúvidas, melhor do que ele gostaria.
Não espere respostas prontas, ainda bem.
Freud e o Visitante provoca mais do que explica. E gostei muito disso. A peça não tenta convencer ninguém a acreditar ou deixar de acreditar. Ela joga algumas perguntas no palco e deixa que cada pessoa leve as suas para casa.
Eu trouxe várias.

Também preciso falar do elenco.
Adriano Bedin, Anna Cecília Junqueira, Brian Penido Ross e Bruno Barchesi fazem um trabalho maravilhoso. É um daqueles espetáculos em que a palavra tem enorme importância e, por isso mesmo, depende muito de quem está dizendo aquela palavra. E o elenco sustenta isso com segurança, timing, emoção e uma naturalidade que faz a gente esquecer por alguns momentos que está diante de uma encenação.
Mais do que uma história sobre Freud ou sobre a existência de Deus, enxerguei ali uma história sobre nós. Sobre nossa necessidade quase desesperada de encontrar alguma lógica para aquilo que acontece ao nosso redor.
Talvez por isso um texto ambientado em 1938 continue conversando tão bem com uma plateia em 2026.
Mudam os tempos, mudam os medos, mudam os personagens. Mas continuamos procurando respostas.
E talvez algumas das melhores noites no teatro sejam justamente aquelas em que saímos de lá com mais perguntas do que tínhamos quando entramos.
A de hoje foi uma delas.






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