
Saí de O Deus da Carnificina com aquela sensação boa que o teatro provoca: a de ter rido de uma situação que, no fundo, é muito mais séria do que parece.
A peça, escrita pela francesa Yasmina Reza, parte de uma situação aparentemente simples: dois casais se encontram para conversar sobre uma briga envolvendo os filhos. O encontro começa civilizado, educado, cheio de palavras escolhidas com cuidado. Mas basta pouco tempo para que as máscaras comecem a cair.
E foi justamente aí que a peça me ganhou.
O cenário é simples, sem grandes excessos, e talvez justamente por isso funcione tão bem. A atenção fica onde deve estar: nos personagens, no texto e, principalmente, nos atores.
E que atores!
Ângelo Paes Leme, Bianca Byington, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch sustentam a peça com muita segurança, construindo personagens que vão se revelando aos poucos. As mudanças de humor, as provocações, as pequenas explosões e os momentos de aparente tranquilidade fazem com que a tensão cresça diante dos nossos olhos. É um daqueles trabalhos em que o ator precisa dominar não apenas a fala, mas também o silêncio, o olhar e o tempo exato de uma reação.

Eu ri bastante. Mas também me reconheci em alguns momentos.
E talvez essa seja a grande força de O Deus da Carnificina: ninguém está completamente certo. E, pior, ninguém está completamente errado. Os quatro personagens carregam suas próprias verdades, seus ressentimentos e suas fragilidades. Quando a civilidade desaparece, sobra o ser humano como ele realmente é.
Na noite de ontem, no Teatro Municipal de Uberlândia Odelmo Leão, o público acompanhou essa transformação com atenção e, muitas vezes, com boas risadas. Mas por trás do humor existe uma provocação bastante séria: até que ponto somos civilizados porque realmente somos ou porque aprendemos a controlar aquilo que sentimos?
A tal “carnificina” do título não precisa de sangue. Ela acontece nas palavras, nos olhares, nas ironias e naquele instante em que alguém deixa de fingir que está tudo bem.
E talvez seja por isso que a peça continue tão atual.
No fim, saí pensando que quatro pessoas sentadas em uma sala podem ser muito mais perigosas — e muito mais divertidas — do que qualquer grande espetáculo de violência.
O Deus da Carnificina é teatro sobre relações humanas. É comédia, mas não apenas comédia. É incômodo, divertido e, em alguns momentos, assustadoramente familiar.
Eu gostei. E gostei principalmente porque, enquanto assistia à carnificina dos outros, fiquei me perguntando quantas vezes nós também participamos dela — só que com um pouco mais de educação.
Uma boa noite de teatro. Daquelas que continuam na cabeça depois que as luzes se apagam.






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